22 abril 2008

MEU AMOR.

Raul de Carvalho
Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem as imagens?
Preciso habituar-me a substituir-te pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direção é igualmente passageira e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor
de todos os teus gestos invisíveis,
à canção que tu cantas
e que mais ninguém ouve a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso passar sem ti.
E hei-de ser feliz
ainda que isso não seja ser feliz.

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